Estudei na Uerj. Foram tempos agradáveis. Tive uma colega com quem, para ajudá-la, estudava. Num curso de Sociologia, sendo a matéria Metodologia Científica, eu explicava sobre a dificuldade de mantermos uma perspectiva objetiva sobe fatos que eram, em essência, objetivos. O olhar parado da colega indicava que não estava entendendo nada. Perguntei-lhe se sabia o que era objetivo e subjetivo. Sua resposta foi: não. Numa outra ocasião, a palavra problemática era coerência. Ao indagar sobre sua compreensão acerca da dita cuja, os olhos da colega brilharam de alegria. Pedi que me explicasse seu significado. Orgulhosa, ela respondeu - parêntesis, eu era a representante de turma - "Coerente é o que você está sempre aí na frente dizendo que nós devemos ser". Se o Aurélio souber disso...!!!
Numa outra oportunidade, conversando sobre o motivo de termos escolhido sociologia, a mesma jovem respondeu que "era a mais fácil de entrar". Olhei nos olhos dela e perguntei: "Afinal, o que você gostaria de ser”? Sua resposta está gravada até hoje em minha memória: "bailarina". O mundo talvez tenha perdido uma grande bailarina, mas a sociologia, com certeza, ganhou uma péssima socióloga.
Que tipo de vida teve essa jovem antes de ingressar na UNIVERSIDADE? Passou fome? Foi estuprada? Sofreu abusos físicos? Teve uma infância feliz, com lápis, cadernos, desenhos, televisão, brinquedos criativos? Quero crer que não.
Não consigo imaginar que o mais grave problema da educação brasileira se encontre nas universidades. Penso em todas as crianças pobres, que não têm creches nem jardins de infância, que chegam ao C.A. depois de muita surra, maus-tratos, fome, maus exemplos, sem ter desenvolvido a habilidade fina, que é a que permite a uma pessoa saber segurar um lápis e desenhar um “a”. Penso na criança pobre que entra na escola com sete anos de desvantagem em relação à criança rica e que acredita que, só por ter UNIVERSIDADE vai conseguir ser alguém na vida.
Universidades são para pessoas inteligentes, estudiosas e competentes, capazes de desenvolver projetos, inventar coisas criativas, filosofar sobre a vida e escrever livros capazes de abalar o status quo. Não estou dizendo que uma criança pobre não possa fazer isso. O que estou dizendo é que uma criança que não teve o mínimo de proteção, carinho, orientação, alimentação e aprendizado na PRIMEIRA INFÂNCIA, jamais terá condições de atingir os requisitos básicos para ser um bom universitário.
Se eu fosse o Ministro da Educação, mantinha o que já existe do jeito que está e criava uma SUPER VERBA para proteger, educar, orientar, ensinar, alimentar TODAS AS CRIANÇAS pobres de 0 a 12 anos. Feito isso, começaríamos a discutir os cursos profissionalizantes capazes de colocá-las no mercado de trabalho com dignidade de gente, e não como coisas estranhas que suam frio quando, adultos, tentam escrever BANANA, MACACO ou BEBÊ. Eu vi isso acontecer, recentemente, com um jovem pedreiro que veio me procurar, querendo aprender a ler. Um homem enorme, capaz de carregar 80 kg. nas costas, mas que parecia um bebê assustado diante do quadro negro, do caderno e de mim, simples ser humano que tentava anima-lo a aprender. Veio uma vez e sumiu.
50% de vagas para os que não estão preparados? Para quê? Eles receberão um diploma e continuarão sendo pedreiros, lixeiros, desempregados... O aprendizado começa na primeira infância. Se nossos bebês forem abandonados à própria sorte, não adianta querer, depois, transformá-los em doutores. Continuarão sendo deficientes em tantas áreas, que não conseguirão ser bem sucedidos nas profissões escolhidas.
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